[UM DESABAFO E UMA DEFINIÇÃO GREGA]
Por que no mundo de hoje, tão "avançado" e complexo, não somos capazes de definir, nem sequer separar, o amor da paixão? E aí, quando nos decepcionamos, já xingamos Eros e todos os seus antepassados pela patifaria que aprontou com a gente.
De fato, definir em linhas gerais o conceito Amor não é simples: vemos inúmeras manifestações de afeto,
atenção, carinho e respeito que as pessoas acabam denominando como amor, e também relações a dois, duradouras, que seguem todo o padrão "Disney" levando a mesma qualidade. E isso nos leva a uma certa banalização do que se conhecia, até então, sobre o amor, pois hoje qualquer um ama qualquer outro a qualquer instante (daria para explicar historicamente e sociologicamente isso, mas deixarei para uma outra vez).
Além disso, muitos tratam como amor aquilo que os gregos antigos conheciam como Paixão. Sim, a diferença era absurda - e na verdade explica bem nossas pseudo relações de hoje. Dessa vez falarei sobre a definição, etimológica, de paixão segundo os gregos.
O que nós, crianças perdidas do século XXI, chamamos de amor, os gregos possuíam três palavras diferentes: αγαπη ("ágape"), φιλια ("philia") e ερως ("eros").
"Ágape" é o amor divino, ligado a deus e expresso, normalmente, pela fé. Um amor incondicional, que não teme o sacrifício, e que nada tem a ver com o desejo e a necessidade do contato da carne. É o sentimento mais difícil de se alcançar, tamanha sua perfeição.
"Philia" é o amor fraternal, contemplativo, onde o desejo de se ver o bem estar do outro é a palavra de ordem. É o amor que sentimos pelos amigos, pelos pais, e também a contemplação pelos fenômenos e pelas ideias. A própria palavra Filosofia (φιλοσοφια) é a junção da palavra "philia" com a palavra "sophia" (σοφια), que significa conhecimento, sabedoria - ou seja, Filosofia é, etimologicamente falando, o "amor ao conhecimento", a "contemplação do saber".
"Eros" é amor mais próximo do amor que chamamos hoje de romântico, uma conexão de corpo e alma entre duas pessoas. Maior que a "philia" (porque vai muito além da contemplação) e menor que o "ágape" (porque ele ainda tem conexão com a existência física), o "eros" é o desejo da alma pelo outro, mas um desejo consciente, puro e profundo, expressado e alimentado pelo corpo.
O "eros" é sempre confundido com a paixão, que para os gregos nada tinha a ver com o amor... na verdade, apaixonar-se estava longe de ser uma forma de amar.
"Phatos" (ραθως), além de significar paixão, também significa doença, excesso, sofrimento, passividade e passagem. Diferente do amor, a paixão é a perda de controle da sensatez (da alma) e a entrega cega aos desejos da carne, que levam a pessoa a depender de uma entrega recíproca daquele por quem se apaixonou. Tais desejos tornam o sujeito carente, ciumento e obsessivo, onde há uma necessidade de posse quase que incontrolável. É um sentimento egoísta, que não deixa espaço para o que o outro deseja ou deixa de desejar - ao contrário do amor, que para fluir e se sentir completo, precisa da liberdade. Apaixonar-se, para os gregos, era adoecer... um delírio do corpo que calava a alma.
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Que loucura é perceber que, aquilo que achávamos que era "eros" não passava de "pathos" e acabou virando "philia"... sim, meus pequenos gafanhotos, a pseudo filósofa que aqui vos escreve caçou o cupido (que na mitologia grega era representado pelo Eros) para lhe arrancar mecha por mecha de seus cachinhos, e hoje percebe o tamanho da imaturidade da interpretação daquilo que sentia. Hoje só resta a confissão socrática do meu conhecimento e das minhas experiências com o amor: "Só sei que nada sei".
"VEM E ME DIZ O QUE ACONTECEU, FAZ DE CONTA QUE PASSOU. QUEM INVENTOU O AMOR, ME EXPLICA POR FAVOR".
(Legião Urbana - Antes das Seis)
